Tradição

Bloco Mulher da Sombrinha completa 35 anos de mistério em Catende

Ana Maria Miranda
Ana Maria Miranda
Publicado em 02/02/2018 às 15:36
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Bloco Mulher da Sombrinha está na 35ª edição
Foto: divulgação/Prefeitura de Catende

Mesmo após 35 anos de tradição, o bloco Mulher da Sombrinha, principal festa do pré-Carnaval de Catende, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, ainda é envolto de mistério. A história chega a ser macabra: uma mulher vestida de branco e com uma sombrinha na mão ficava esperando a saída dos operários do turno da noite da Usina Catende (desativada em 2009). Os trabalhadores ficavam encantados com a beleza e a seguiam até o cemitério da cidade, que fica a cerca de um quilômetro de distância. Chegando lá, a mulher desaparecia. Alguns operários desmaiavam e só acordavam no outro dia.

Marcos Catende e Tomires Cordeiro na primeira edição do bloco
Foto: arquivo pessoal

As más línguas diziam que tratava-se de uma mulher casada que encontrava-se com os amantes no cemitério e ocasionou o surgimento da lenda. Verdadeira ou não, a história surgida no fim do século XIX virou brincadeira após um grupo de amigos decidir criar o bloco. De acordo com o historiador e membro da Academia Palmarense de Letras, Eduardo Menezes, inicialmente não havia intenção de que a festa tomasse grandes proporções. "A prefeitura comprou a ideia e o bloco foi crescendo", relata Eduardo, que é autor do livro "Memória Histórica de Catende" e participou da obra "Lendas do Nordeste", na qual conta a história da Mulher da Sombrinha.

O cantor e compositor Marcos Catende faz parte da geração que possibilitou a realização do bloco. Quando estava em seus 20 anos, era secretário de Cultura da cidade e participou da divulgação da Mulher da Sombrinha através de rádios, carros de som, entre outros meios. "A gente pensava que ia ser no máximo umas 15 pessoas. Quando chegou lá, já na primeira edição, foi um sucesso. Quando deu meia-noite estava lá a multidão. Ficamos todos emocionados, o chororô foi grande", relembra Marcos. Hoje aos 60 anos, ele se diz satisfeito com as proporções que o bloco tomou. Proporcionalmente, só perde hoje para o Galo da Madrugada", garante.

Cantor e compositor Marcos Catende tem história diretamente ligada ao bloco
Foto: Paulo Filho/divulgação

Desde 14 de agosto de 2009, o bloco A Mulher da Sombrinha é considerado Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de Pernambuco, através da lei estadual 13.840. Em 2018, o desfile acontece neste sábado (3). A expectativa da prefeitura, que organiza o evento, é que este ano o bloco receba cerca de 55 mil pessoas. O ponto de partida é o Cemitério Sagrada Família. A concentração começa às 22h e tem como atração o cantor e compositor Allan Carlos. A saída do bloco está marcada para 0h (já de domingo), acompanhando os trios elétricos de Peões Elétrico (frevo) e Marcos Catende. O trajeto tem cerca de 2 quilômetros e termina no Pátio de Eventos, onde Rafa e Pipo Marques fazem apresentação.

A fantasia da estrela da festa é confeccionada de acordo com um tema específico a cada ano. Mas, como é de costume, a roupa não é revelada até o dia do desfile. A boneca da Mulher da Sombrinha tem 15 quilos e chega a pesar 35 quilos quando está vestida. No desfile, ela é acompanhada pelo boneco do operário, que veste uma roupa combinando, e um cortejo de bonecos gigantes. "O bloco é muito importante e ficou tão conhecido que tem pessoas que conhecem o bloco mas não conhecem a cidade", revela o atual secretário de Cultura de Catende, Alexandre Mauro.

Música e homenagens

A Mulher da Sombrinha é tão aclamada na cidade que já recebeu várias homenagens. O hino oficial foi composto por Marcos Catende em 1994, 11 anos após o início do bloco. Atualmente, a canção que também leva a voz dele está presente em todas as edições da festa.

Mais recentemente, no ano de 2015, o cantor e compositor Allan Carlos, que este ano anima a concentração do bloco, lançou a música "Enfeitiçado na Mulher da Sombrinha". Apesar de não morar mais em Catende, Allan decidiu prestar uma homenagem à cidade e à Mulher. "Quando criança e já mais velho, sempre prestigiei o bloco. Com a música, quis fazer um registro da forma como eu enxergava", explica. A letra reforça a lenda e aborda ruas do trajeto do bloco, além de pessoas folclóricas da cidade. Por tratar da história e geografia de Catende, a canção chegou a ser utilizada por professoras da rede municipal de ensino durante as aulas.

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