Caruaru

Mestres do forró dão o tom do período junino

Ana Maria Miranda
Ana Maria Miranda
Publicado em 17/05/2019 às 15:00
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Onildo Almeida é autor da música Feira de Caruaru
Foto: Janaína Pepeu/Especial para o SJCC

O título de "Capital do Forró" que Caruaru recebeu do compositor Jorge de Altinho não veio por acaso. A cidade é a casa de compositores, cantores e músicos em geral que eternizaram a história, a vida cotidiana, os costumes e as peculiaridades dos caruaruenses e do povo nordestino. Primeiro fazenda, depois vila e, por último, cidade, Caruaru herdou as tradições dos moradores da fazenda Caruru. As festas juninas mais parecidas como a que conhecemos hoje começaram em 1972, realizadas pelo cirurgião-dentista Agripino Pereira, na rua Três de Maio, no centro da cidade. Quatro anos depois, o comando da festa ficou com as irmãs Lira, no mesmo local. Em 1994, o evento migrou para a avenida Rui Barbosa e mudou-se pela última vez com a inauguração do Pátio de Eventos Luiz Lua Gonzaga, em 1995, onde está até hoje.

Na avaliação do historiador José Urbano Silva, a divulgação e disseminação do principal ritmo da festa foram possíveis através da chegada da Rádio Difusora, em 1951. Parte de um grande conglomerado de comunicação, a primeira rede de rádios do interior do Nordeste chegou com bons profissionais, cachês e equipamentos. José Urbano acredita que foi a partir do centenário de Caruaru, em 1957, quando no auge do sucesso o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, conheceu e gravou a música "Feira de Caruaru", de autoria de Onildo Almeida cantor e compositor, que nasceu a identidade musical da cidade. "Onildo 'abriu as porteiras' para os demais compositores, como Nelson Barbalho, Janduhy Finizola, que começam a jornada a partir desse encontro dos dois", explicou.

Atualmente aos 91 anos, Onildo Almeida lembra bem do início da carreira. Quando era jovem, vivia em uma família com a veia artística: o pai comerciante tocava violino, bandolim e violão. As irmãs tocavam piano. A residência era espaço para várias festas, que recebiam pessoas da cidade. A brincadeira começou no jardim da casa. No ginásio, reuniu-se com colegas e foi se aperfeiçoando. O grupo chegou a se apresentar em Campina Grande (PB), Garanhuns, Pesqueira, e outras cidades da região. Quando a Difusora inaugurou, a banda se apresentou nos programas de auditório. "Fui me divulgando, aperfeiçoando, me desenvolvendo como cantor, compositor, vocalista, a coisa foi nascendo naturalmente. A rádio foi o grande apoio que tive", relembrou.

A primeira música gravada, por Gilberto Fernandes, foi "Linda Espanhola", que ganhou o primeiro lugar no Carnaval de Pernambuco. "Foi um sucesso inesperado, uma surpresa muito agradável", disse Onildo, relembrando que passou na frente de nomes como Nelson Ferreira e Capiba. Hoje com cerca de 400 músicas gravadas e cantadas por Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Marinês, entre outros, Onildo Almeida se reconhece como o nome que mais divulgou a cidade em todo o mundo: "Essa gente era a nata do forró".

Walmir Silva já esteve ao lado até de Madonna
Foto: Janaína Pepeu/Especial para o SJCC

O músico Walmir Silva, 70 anos, também está entre os antigos do forró. Ele começou a carreira no pastoril e consolidou-se no forró, tendo a oportunidade de divulgar a música em 28 países, durante os 55 anos de carreira. Hoje tem mais de 800 músicas gravadas, três discos de ouro, dois de platina e um de diamante. Uma das composições mais conhecidas é "Briga de Casamento"; os versos "Não fure Quinho não/não fure Quinho não/ Que Quinho é gente boa e não gosta de confusão" conquistaram milhares de ouvintes. Walmir Silva já esteve ao lado de Madonna, dos filhos de Michael Jackson, de Julio Iglesias, entre outros artistas reconhecidos internacionalmente, enquanto divulgava o forró. "A música nordestina nunca acaba. O forró nunca acaba. Hoje se gravar uma música dessas novas passa um mês, dois e ninguém sabe mais", apontou.

Música de Humberto Bonny foi campeã do programa SuperStar
Foto: Janaína Pepeu/Especial para o SJCC

Já da história um pouco mais recente do forró, o cantor e compositor Humberto Bonny iniciou a carreira nas bandas de baile como Pingo D'água, banda de Camarão, Brilho do Sol de Bonito, entre outras. Santanna, Adelmário Coelho, Renilda Cardoso e Fulô de Mandacaru são alguns nomes que gravaram canções de autoria dele. Uma das mais conhecidas em âmbito nacional na história recente foi "São João de Outrora", cantada pela Fulô de Mandacaru no programa SuperStar, da Rede Globo, no qual sagrou-se campeã: "Eu sinto saudades de Luiz/ Porque eu ainda gosto de dançar/Um forrozinho de pé de serra/Daquele que a gente fica até o dia clarear".

"Naquela época não tinha internet, a gente pegava música com gravador de fita, ficava engolindo a fita, mesmo na hora crucial do guitarrista pegar um solo, a fita engolia", relembrou. Uma das músicas que retratou o cotidiano, "Casa de Vovó", fez nordestinos que moravam em São Paulo chorarem relembrando da terra. "Uma mesa e um pote na sala/Um fogão de lenha na cozinha/Uma chaleira com água fervia o café que tia Lu fazia". O artista acredita na importância de levar a cultura para as escolas e mostrar para as crianças a importância dos artistas da região, como Azulão, Luiz Gonzaga, Capiba, entre outros: "Um povo sem cultura é um aglomerado de gente besta correndo atrás do que não sabe".

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