Quem não tem cão, vende a televisão

Por Igor Maciel
Por Igor Maciel
Publicado em 09/06/2010 às 15:31
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O café da manhã, hoje, trouxe-me notícia que serve para reflexão. Luciene, que trabalha aqui em casa, vai fazer um cartão de crédito. A novidade mexeu com todos. Enquanto eu a orientava a não fazer compras que não possa pagar, já que é preciso ter cuidado com “dinheiro plástico”, ela me garantia que vai ter cuidado para não fazer igual a uma vizinha.

Aliás, a história é sobre a vizinha. A mulher e o marido andam mal das pernas por causa das contas a pagar. Falta dinheiro, sobram faturas. Mas sempre viajam no feriado, “porque ir à praia é sagrado”. Tiveram uma grande idéia para financiar a viagem: venderam a televisão.

De acordo com Luciene, o planejamento é simples. Eles entregaram o aparelho por R$ 250 e vão usar o dinheiro para comprar bebidas e pagar a passagem até uma dessas praias no litoral sul. Viajam em uma excursão. A farofa com vinagrete um amigo do casal leva, o som também. O resto é festa.

E, na volta, a novela e os programas de auditório estão garantidos. Os vizinhos de Luciene são clientes de uma dessas lojas de eletrodomésticos. Com parcelas de R$ 19 dá pra comprar outra televisão maior e muito mais moderna. É quase o milagre da multiplicação. E pensar que Jesus fazia isso com pães.

Com parcelas de R$ 19 dá pra comprar outra televisão maior e muito mais moderna

Desde que os celulares passaram de aparelhos utilizados por boçais a artigos de primeira necessidade, o acesso das populações de baixa renda à tecnologia cresceu vertiginosamente. O acesso ao crédito também. Dividir em parcelas a compra de um aparelho de televisão parece coisa antiga, mas é um avanço recente.

A primeira TV da minha casa foi comprada através de um consórcio. Deve fazer uns vinte anos. Na época não tínhamos condição de comprar o vídeo-cassete e ficou só na televisão mesmo. Durante os 60 meses em que pagamos nossa TV, ela era a mais moderna do mercado. Foi um grande negócio.

Os amigos de Luciene vão voltar do feriado e comprar uma televisão mais avançada do que a que estava disponível antes da viagem. O preço também vai ser mais alto, o número de parcelas vai ser maior.

O problema é que, naquela época, a tecnologia avançava lentamente. Hoje, ela é tão rápida que nem dá espaço para o planejamento. O lançamento de hoje à noite já está ultrapassado ontem pela manhã. E a TV mais avançada vira peça de museu nos primeiros dois meses dos 72 que terão que ser pagos.

Estão ensinando às famílias que eles agora podem comprar o que quiserem. Mas ninguém ensina que ter mais crédito significa ter mais responsabilidade. Em médio e longo prazo, essas facilidades de pagamento travestidas de oportunidade, serão enormes calos no orçamento. É daí que nascem as bolhas econômicas que geram crises.

Se observarmos a história econômica e política do Brasil, veremos que nosso país tem ciclos de riqueza e miséria intermitentes. Será que não chegou a hora de educar os brasileiros para o crescimento sustentável?

Ano que vem os vizinhos de Luciene ainda estarão pagando a TV quando chegarem os próximos feriados.
Talvez eles vendam a geladeira.

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