As pessoas não são números

Por Igor Maciel
Por Igor Maciel
Publicado em 15/07/2010 às 8:30
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Dois anestesistas do Hospital Regional do Agreste, em Caruaru, resolveram seguir a orientação de uma cooperativa da qual fazem parte e paralisaram as atividades, esperando um reajuste salarial. O HRA tinha quatro anestesistas. Sobraram dois.

O Governo do Estado ofereceu aumento de 27,5%. Os profissionais demoraram a estudar a proposta: dois dias. Recusaram. A greve já dura 22 dias. Enquanto isso, dezenas de pacientes esperam por uma solução para serem submetidos a cirurgias.

Será que não dói na consciência de um médico saber que, enquanto ele negocia um número no contracheque, pessoas estão sofrendo pela ausência dele?

Até agora falamos de números, vamos falar de pessoas. Dona Maria José, 76 anos, há cinco meses espera por uma cirurgia para retirar uma sonda do nariz. Ela está com dificuldade para respirar, sente dor, não consegue falar direito. A filha dela praticamente montou abrigo na recepção do hospital. Seu José Francisco, 52 anos, quebrou a perna, precisa fazer uma cirurgia. Está esperando há 20 dias. De acordo com familiares, o membro lesionado já encurtou, por causa da demora. Seu José vai ficar com uma perna menor que a outra, pelo resto da vida. Por ser mototaxista, vai ser difícil voltar a trabalhar. Por ter mais de 50 anos, vai ser difícil arranjar emprego.

Os próximos anos de seu José e de dona Maria serão incertos. Já os dos anestesistas que usaram a saúde dos pacientes para conseguir um reajuste, certamente serão tranquilos, pelo menos eles conseguirão um reajuste.

Faz 10 anos que comecei a trabalhar, minha categoria tem reajustes anuais. E eu nunca deixei de ir ao trabalho nem um dia porque estava negociando aumento. O sindicato faz isso e eu sigo trabalhando.

Será que não dói na consciência de um médico saber que, enquanto ele negocia um número no contracheque, pessoas estão sofrendo pela ausência dele? Será que não dói na consciência do secretário de Saúde ficar negociando enquanto pacientes estão sendo mandado para sofrer em casa, por falta de médicos? O Estado poderia resolver isso se realizasse mais concursos, evitando essas cooperativas.

Será que é tão difícil se sensibilizar com os josés e marias dos hospitais públicos? A filosofia diz que o ser humano pode ser comprovado pela forma como enxerga as coisas. Pois é. Tem gente que olha para os josés e marias e enxerga pessoas de bem, sofrendo, necessitando de cura, necessitando de apoio.

Tem gente que vê números. Que se há de fazer?!

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