O nariz de palhaço, o título de eleitor e a carteira profissional

Por Igor Maciel
Por Igor Maciel
Publicado em 01/12/2010 às 14:25
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A decoração é paga com dinheiro público. Fecham-se as escolas, prepara-se o ambiente com tudo para que ninguém fique insatisfeito. A divulgação é feita durante os meses anteriores. Em alguns casos, mesmo sendo proibido pela comissão de festa, o dinheiro das prefeituras e governos é utilizado para isso. Patrocínio para que haja garantias de sucesso no evento.

Esse é o papel do Estado liberal, afinal, para garantir que o mercado possa ser mantido em equilíbrio. Principalmente se esse equilíbrio for desequilibrado na direção certa.

A comissão de festa deixa tudo organizado no dia, envia convites para a imprensa, dá entrevistas, marca os horários. Quando tudo está pronto, basta esperar os palhaços. E lá vamos nós, com o nariz de bola vermelho, depositar nosso entendimento do país que dizemos querer. Lá vamos nós às urnas.

Como toda festa precede a ressaca, não poderia ser diferente por aqui. Menos de uma semana após a votação, Pernambuco assistiu um festival de demissões em prefeituras municipais. Todas amparadas no Tribunal de Contas que, curiosamente, só notificou de maneira oficial as administrações sobre o excesso de funcionários, após o dia da votação. Pelo visto, a festa tinha música e era muito bem orquestrada.

Em Caruaru, no agreste, foram quase 400 demissões de uma só vez. Até o fim do ano, outras devem acontecer.  Nesse mesmo período, houve demissões em massa nos municípios de Águas Belas e Tracunhaém, só para citar dois dos vários exemplos entres os 184 municípios.

A pergunta que se faz é: antes das eleições a administração não sabia quantos poderia contratar, ou sabia e resolveu assumir o risco?

Qualquer uma das respostas coloca em xeque a capacidade de planejamento de uma prefeitura, ou a intenção moral dessas contratações descartadas logo após uma eleição.

Então, os prefeitos não sabiam quantas pessoas poderiam contratar ou contrataram mesmo sabendo disso, imaginando que poderiam inchar a máquina pública para garantir votos durante as eleições?

No Brasil, a Constituição de 1988, determina que os cargos públicos devam ser ocupados através de concurso. O TCE começou a cobrar isso. Se será considerado, é outra história. Mas seria um avanço para evitar a decepção de trabalhadores que vão passar o natal de 2010 no aperto.

Sem peru e com o nariz de palhaço guardado no fundo do armário, perto do título de eleitor e da carteira profissional.


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