AGRESTE

Moradores se unem para construir ponte

Do Jornal do Commercio
Do Jornal do Commercio
Publicado em 29/01/2011 às 16:33
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Irritados com a falta de atenção do poder público, pequenos empresários de Caruaru, Frei Miguelinho e Riacho das Almas, no Agreste, uniram-se para arrecadar dinheiro e construir uma ponte de 110 metros de comprimento e seis de largura, ligando a Capital do Forró ao Sítio Topada, em Frei Miguelinho. Em dias de chuva, a população ficava isolada e precisava fazer um desvio de 70 quilômetros por Toritama para chegar ao Centro da cidade. Sem transporte regular e com as estradas em péssimas condições, no inverno o drama era ainda maior: muitos deixavam de trabalhar nos três municípios, já que Riacho das Almas fica a sete quilômetros da comunidade.

De acordo com o agricultor João Paulo Lima, 48 anos, um primo já perdeu o emprego duas vezes só no ano passado. “Geralmente, isso acontece em períodos de chuvas. Além do rio (Capibaribe) encher muito, não existe transporte até Toritama e não dá para caminhar mais de 15 léguas para pegar uma lotação”, relatou. “Essa ponte foi uma bênção. Feita pela comunidade não tem interesse político no meio”, argumentou Maria de Fátima Alves.

Os moradores relatam ter feito o pedido várias vezes às Prefeituras de Caruaru e Frei Miguelinho, mas nunca foram atendidos. “Em algumas vezes não fomos sequer atendidos”, disse um comerciante que preferiu não revelar o nome. A costureira Maria do Socorro Barreto criticou a falta de interesse das duas prefeituras. “Na verdade, ficava aquele jogo de empurra. Frei Miguelinho dizia que não tinha recursos e o pessoal de Caruaru não recebia a gente. Os moradores agora vivem melhor”, destacou.

O JC tentou localizar registros ou laudos técnicos da construção da ponte, mas não existe nada nas secretarias de obras das duas prefeituras envolvidas. A obra foi iniciada em fevereiro de 2009 e inaugurada no último dia 15. Uma placa foi colocada ao lado com o nome de todas as pessoas que contribuíram com recursos. O secretário de Infraestrutura e Políticas Ambientais de Caruaru, Severino Monteiro, disse que esteve no local há seis meses quando a ponte já estava sendo erguida e comprovou que era artesanal. “Não existem garantias. Não tem projeto nem engenheiro responsável. Não tem nada. Também não houve fiscalização do Crea (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura)”, disse Monteiro. Ele também não justificou os motivos pelos quais a prefeitura não realizou a obra ou cedeu engenheiros.

Em nota oficial, o Crea questionou a obra e afirmou que a decisão de construir a ponte que liga as duas cidades cabe ao DER-PE. “A largura do tabuleiro só comporta fluxo em uma via. Outro ponto observado foi a mesoestrutura das pontes (pilares) em excesso, a qual causará bloqueio ao fluxo de enchentes, levando sua estrutura à ruína”, diz a nota. De acordo com o ex-presidente do Crea Roberto Freitas, a entidade não tem poder de paralisar uma obra, apenas o de fiscalizar se ela está correta ou não. “O embargo é de responsabilidade das prefeituras.”

Diante da informação do Crea, Severino Monteiro disse que a prefeitura não tem responsabilidade no embargo da obra. “Eles (do Crea) foram lá e viram que não existiam especificações técnicas. Nesse caso cabe ao conselho a responsabilidade pelo embargo.”

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