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A reponsabilidade da natureza termina quando a chuva começa a cair

A cena foi maravilhosa. Digna de um daqueles filmes patriotas americanos. Só faltou a bandeira brasileira tremulando no alto de um morro em Palmares, enquanto o presidente Lula e o Governador Eduardo Campos, com os pés enfiados na lama, choravam com o povo e prometiam: “ninguém vai ficar desamparado”.

Em 2010, curiosamente, período eleitoral. No fim do ano, ambos tiveram sucesso nas urnas. Nos últimos 11 meses, nossas equipes de reportagem passaram a seguir até a zona da Mata Sul de Pernambuco com certa regularidade. Íamos fiscalizar a operação reconstrução, ver se as pessoas já estavam recebendo as moradias prometidas, se os municípios estavam sendo reconstruídos mesmo, se os comerciantes estavam recebendo a verba garantida pelo Estado.

Ao todo, foram prometidos R$ 1 bilhão para as áreas atingidas pelas chuvas em 2010. Até agora, quase um ano depois, nenhuma casa foi construída, pessoas foram expulsas de abrigos.

Os governantes precisam ser questionados pelo povo, precisam ser cobrados

Na última quarta-feira (28), a história que mais me revoltou veio de Catende. Uma mulher disse ter sido expulsa do abrigo em que estava há 11 meses esperando uma casa, dentro de uma quadra de futebol, porque um campeonato precisava ser realizado.

Também em Catende, a reportagem da TV Jornal Caruaru esteve há menos de um mês, mostrando exatamente as pessoas que voltaram às áreas críticas, porque não tinha lugar para viver. Ontem (4), após a chuva, procuramos nossa entrevistada para saber como ela estava. Não encontramos. A rua em que ela morava foi devastada novamente pelas águas.

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Quando essas tragédias acontecem, costuma-se culpar a natureza. Vamos falar de lógica, agora. A responsabilidade da santa natureza termina quando os pingos de chuva começam a cair. Tudo o que acontece depois disso é responsabilidade nossa. Somos nós que invadimos a área dos rios. No Recife, por exemplo, há um caso clássico de desrespeito à natureza. A avenida Caxangá foi construída por cima de um dos braços do rio Capibaribe, aterrado há dezenas de anos.  Adivinha pra onde a água vai quando ele enche?

O normal seria vir até aqui e reclamar dos governantes. Que precisamos trocar o governador, os prefeitos, vereadores e até o balconista da loja de doces. Foi o que a democracia nos ensinou. Se estiver ruim, manda embora e vota em outro.

Mas isso não resolve. Porque não adianta trocar o nome que assina os projetos, se os projetos continuarão atrasados ou envolvidos em fraudes. A democracia nos acostumou mal. É o melhor regime, mas precisa ser utilizado bem. Caso contrário, ficamos na lama, literalmente.

Não. Não adianta mudar o corpo que senta na cadeira. O que tem que mudar é a cabeça que integra esse corpo. E não faremos isso cortando o pescoço de ninguém. Os mais sanguinários que não se animem. O exemplo disso foi a Revolução Francesa, quando reis foram decapitados e o máximo que conseguimos foram os presidentes atuais.

Liberdade, igualdade e fraternidade são temas ''bonitinhos'', mas nos deixaram do jeito que somos hoje, vivendo esse projeto de democracia que é mais desigual, menos libertário e mais fraticida do que fraternal.

Os governantes precisam ser questionados pelo povo, precisam ser cobrados. Eles precisam entender que são funcionários públicos. Precisam entender que não são suportes para distribuição de colchões e barracas quando a chuva destrói as cidades.

Eles são agentes contratados para planejar as cidades e evitar que essas tragédias aconteçam. Ninguém impede a chuva, mas é possível impedir que ela atinja populações inteiras como vem acontecendo.

É preciso mudar a cultura de que políticos são deuses e estão alí para nos salvar. Não. Eles estão alí para nos servir.
O que tem que mudar é a forma como os governantes se enxergam.  Se todos entendermos isso, ninguém perde a cabeça. Se todos entendermos isso, a população vai sofrer menos!