DESCASO

Terminal de passageiros de Cachoeirinha é retrato do abandono

Por Shirlene Marques
Por Shirlene Marques
Publicado em 28/03/2012 às 1:24
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Quem passa pela BR-423, que liga as cidades de São Caetano a Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, se depara com uma imagem desoladora, a de um prédio cercado por mato e deteriorado pelo tempo. O prédio, com ares de lugar abandonado, é o espaço onde funciona o Terminal Rodoviário da cidade de Cachoeirinha, que é conhecida como a terra dos 'Arreios em Couro e Aço'. A cidade fica a 198 quilômetros do Recife e tem aproximadamente 18 mil habitantes.
 
Eu e seu Reginaldo (nosso motorista) estávamos a caminho de uma pauta, no Agreste pernambucano, e nessa passagem por Cachoeirinha gravei a imagem de um espaço com rachaduras e de difícil identificação. Não queria acreditar que um prédio em estado tão precário pudesse receber passageiros. Continuamos a viagem e de volta decidimos averiguar um pouco mais. Logo que descemos do carro, comecei a fazer algumas imagens. Um senhor desenvolto chegou ao meu lado e foi logo disparando: 'Isso aqui é uma vergonha, é o cartão-postal da nossa cidade. Como é que alguém chega pela primeira vez aqui e vê um lugar assim, o que vai ficar pensando?', questionou com ares de desgosto. Ele aproximou-se de um carrinho de carregar bagagens, logo percebi que trabalhava ali.

João Bosco da Silva, 55, que é agricultor, viu o Terminal ser inaugurado em 1988 e no ano seguinte começou a transportar as malas dos viajantes. Ele está lá há 23 anos e assim entendo o porquê de sua mágoa. Porém, como todo bom nordestino, guarda no íntimo a esperança de mudança, de renovação. 'O governador (Eduardo Campos) pode até passar por aqui (referindo-se à estrada), mas acho que ele não sabe que a Rodoviária tá assim, se soubesse, eu sei que ele faria alguma coisa. Queria tanto que ele soubesse', respira.
 
Seu João nos chama para dar uma olhada na estrutura interna do prédio. Nós o seguimos e logo aparece um rapaz reclamando do teto e das madeiras já apodrecidas. 'Tenho vergonha. A situação está muito séria, principalmente a do teto, quando chove é um aperreio', disse. Ele é mais um que conhece de perto a rotina do Terminal. Alexandre Sobral tem um ponto comercial no local, a Lanchonete Sobral, que fica em frente à pista. 'Também seria bom fazer um calçamento, daria uma nova vida ao terminal', desabafa.
 
Pergunto ao carregador de malas se em um espaço como esse chegam ônibus também de fora.'Oxi, e então! Vem ônibus de São Paulo, do Rio, aí é que dá vergonha'. Enquanto fazia umas fotos de seu João, um ônibus chega ao Terminal. Fui logo percebendo que ali não era a parada final do veículo, mas apenas um ponto de apoio. O carro seguiria para o Recife. A maioria dos passageiros sequer põe os pés no Rodoviária.
 
Uma jovem desce, pega um suco e aproximo-me dela. Quando pergunto sobre a situação do espaço, ela fica sem palavras. Com um sorriso de reprovação, não diz nada no primeiro momento. Espero um pouco. Viveangêla Tavares, 31, auxiliar de serviços gerais, mora no Recife e estava voltando de uma viagem ao Interior. Ela olha para o teto, para as paredes e diz que é a primeira vez que está ali. 'Aqui é muito deserto, dá uma sensação de abandono. É um descaso muito grande, pois um lugar como esse precisa de uma reforma'.
 
De volta ao Recife, fui em busca de respostas. O Terminal de Passageiros de Cachoeirinha é administrado pela Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal (EPTI), gestora do Sistema de Transporte Intermunicipal desde julho do ano passado.
 
A assessoria de imprensa da Empresa nos informou que o Terminal Rodoviário de Cachoeirinha será recuperado até 2013. Até lá, existe a promessa de que ações pontuais, de caráter emergencial, serão avaliadas por equipes técnicas da Empresa. Enquanto isso, seu João permanece por lá, cheio de esperança.

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