Agreste: Nem morrer se pode mais

Por Diego Martinelly Por Diego Martinelly
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Publicado em 06/04/2012 às 11:06
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Em duas cidades do Agreste, morrer dá muito trabalho para a família. Se não bastassem os problemas do cotidiano enfrentados pelos moradores de Jupi e Cupira, agora, se quiser morrer, ou avisa com antecedência de 24 horas para que os coveiros possam retirar as pedras de calçamento das ruas do cemitério, ou se não vai ter que esperar dentro do caixão por mais tempo sendo velado até que os trabalhadores concluam este trabalho braçal.

Essa é a realidade da cidade de Cupira, que se encontra com o cemitério da cidade lotado e a única alternativa encontrada pela prefeitura foi cavar covas nos espaços que antes eram calçadas dentro do próprio cemitério. A equipe do programa O Povo na TV, da TV Jornal Caruaru, procurou ouvir o secretário de Obras da cidade e a justificativa dele foi dizer que o local foi construído há mais de 30 anos e que não suporta mais o crescimento do município. Em Jupi, a realidade é bem parecida, só que a prefeita Celina Brito não teve esta ideia ainda não.

Lá o repórter Fernando Rodolfo encontrou covas com até nove pessoas enterradas no mesmo local. Desde 2010, quando foi denunciado este problema, a chefe do executivo prometeu adquirir um terreno e fazer um novo cemitério, mas até hoje a situação está do mesmo jeito. Nas últimas vezes em que a TV Jornal esteve no município para cobrar solução para este caso, chegou a sofrer represálias de simpatizantes políticos da prefeita.

A polícia teve que ser acionada para que o jornalista e o produtor conseguissem terminar a reportagem. Quem pensa que o coronelismo foi instinto deste país está enganado. Para onde estão indo as verbas federais e estaduais destas cidades que apresentam dificuldade até para construir um cemitério? No Portal da Transparência – site do governo federal onde os contribuintes podem ficar sabendo de todos os recursos enviados para cada município do país – a cidade de Jupi recebeu em 2011 mais de 20 milhões. Já Cupira abocanhou um montante de mais de 26 milhões. Esses aportes financeiros são só federais, não estão inclusos aí o dinheiro do IPTU e nem das verbas encaminhadas pelo Estado.

Entendemos a dor de quem já presenciou um ente querido sendo jogado em espaços apertados ou enterrado em calçadas, mas os mais de 40 mil habitantes existentes nos dois municípios juntos têm sua parcela de contribuição com tudo isto que está acontecendo, pois foram eles que escolheram os governantes de suas cidades. O processo de escolha requer conhecimento, estudo, sensatez, coletividade e não só apenas um simples apertar de botão.

Naquela escolha está o futuro da família, dos filhos, de um povo que, infelizmente, depende de ações e iniciativas dos políticos. Que a onda de conscientização que está sendo vivenciada pelos egípcios e libaneses chegue até o interior de Pernambuco e possa acordar este povo que ainda não atinou para o grande trunfo que tem em suas mãos: o voto. Nestes cemitérios abarrotados de corpos não existe mais o enterro de seres humanos, mas os gestos e as atitudes ditatoriais, egoístas e mesquinhas que estes pseudo-gestores estão mostrando.

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