Luto

Familiares e amigos dão o último adeus ao ceramista Manuel Eudócio

Ana Maria Santiago de Miranda
Ana Maria Santiago de Miranda
Publicado em 14/02/2016 às 17:11
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Dezenas de amigos, parentes e políticos foram ao sepultamento do artesão Manuel Eudócio, em Caruaru
Foto: Kylton Bezerra/ TV Jornal Caruaru
O último adeus ao ceramista Manuel Eudócio, 85 anos, foi marcado por forte comoção de familiares, amigos e políticos, no Cemitério Parque dos Arcos, em Caruaru, no Agreste do Estado, na tarde deste domingo (14). Durante a despedida, o prefeito do município, José Queiroz, anunciou que planeja desenvolver um memorial, a partir desta segunda-feira (15), em homenagem à arte e história do artista.

A banda de pífano Zé do Estado também prestou uma homenagem ao artesão, entoando músicas de despedida. Logo em seguida, o corpo foi sepultado no jazigo da família. Manoel Eudócio foi um dos responsáveis pela divulgação da arte nordestina do barro no Brasil e no Mundo. Era o último artista da geração do Mestre Vitalino e foi considerado Patrimônio Vivo de Pernambuco em 2002.

Eudócio tinha verdadeiro encanto pelo reisado, presente em suas obras
Foto: arquivo
Começou na cerâmica aos oito anos, acompanhando sua avó, que era louceira, e na adolescência, passou a observar de longe a maneira que o renomado Vitalino, seu vizinho, trabalhava. Foi ali que aprendeu de fato seu ofício. Foi junto com o mestre que, em 1962, viajou pelo Brasil e teve seu trabalho reconhecido. Sua obra, feita com prazer e zelo singulares, era inspirada nas cenas do cotidiano nordestino e na crença popular. O encanto que tinha pelo reisado folguedo popular do Nordeste brasileiro - estava presente em muitas das suas peças e era uma de suas marcas.

Aquilo que a gente faz com amor e dá pra sobreviver, a gente não deve abandonar. Até doente eu trabalho aqui
Manuel Eudócio
O ceramista sofria de diabetes e estava internado desde terça-feira (9) no Hospital Mestre Vitalino, com sintomas de chicungunha. Também era hipertenso e sofria de insuficiência renal, que teria sido agravada pelo vírus. Faleceu na noite desse sábado (13), deixando nove filhos. O Hospital Mestre Vitalino, onde o ceramista estava internado, ainda não se pronunciou sobre a causa oficial da morte.

CONFIRA DESPEDIDA:

MEMORIAL - O ateliê, onde trabalhava o artesão, será adaptado para receber visitantes e relembrar a trajetória de vida do discípulo de Mestre Vitalino. Segundo familiares de Eudócio, a penúltima peça dele foi a retração de um sepultamento, que estará em destaque no memorial. Segundo o filho dele Arijaelson Rodrigues, 55, a última vez que o artista pegou na peça foi na sexta-feira (5), um dia antes da semana pré-carnavalesca.

Por meio de nota, a Prefeitura de Caruaru e a Fundação de Cultura e Turismo lamentaram com profundo pesar a perda do artesão, solidário com os familiares, amigos e artistas da terra: "O mestre foi um dos discípulos de Vitalino e através das peças esculpidas em barro desenvolveu traços marcantes e únicos. Eudócio, que é filho de Caruaru, desde sempre viveu no Alto do Moura. Lá criou sua família e deixou como legado a paixão pela arte do barro e a alegria em suas peças." O prefeito decretou luto oficial de três dias. Eudócio muito representou a cultura de Caruaru. No ano passado tivemos a honra e a oportunidade de homenageá-lo em nosso São João e é motivo de muito orgulho, disse Queiroz.

POLÍTICOS - O corpo de Eudócio foi velado na manhã deste domingo (15) na Igreja Vale da Bênção, no Alto do Moura, em frente à casa do artesão. Cerimônia contou com a presença do governador em exercício, Raul Henry, do deputado estadual e ex-prefeito de Caruaru Tony Gel e do atual prefeito, José Queiroz, além do deputado federal Jarbas Vasconcelos, colecionador e amigo do ceramista há 40 anos. À tarde, por volta das 16h20, a mulher do ex-governador Eduardo Campos, Renata, também chegou ao cemitério para se despedir do artista, momentos antes do sepultamento.

Em nota divulgada neste domingo, O governador de Pernambuco, Paulo Câmara, e a primeira-dama, Ana Luíza Câmara, lamentaram a morte do ceramista. Pernambuco amanheceu mais pobre culturalmente com o desaparecimento do Mestre Manuel Eudócio, único artista vivo da geração do Mestre Vitalino, de quem foi discípulo, e um Patrimônio Vivo de nosso Estado.

O ex-governador João Lyra Neto enviou nota de pesar: Manuel Eudócio deixa um grande legado, que honra Pernambuco, em especial Caruaru, que através do talento deste grande artesão, um dos discípulos do Mestre Vitalino, teve sua cultura admirada por todo o Brasil. Foi com muito pesar que recebemos a notícia da sua morte. Com seu toque especial, os bonecos de barro ganharam cores marcantes. Que sua obra seja perpetuada.

O ex-prefeito de Caruaru e deputado estadual Tony Gel também divulgou nota de pesar. Caruaru perde um raro talento que, nas suas hábeis mãos, o Barro do Alto do Moura ganhava formas inconfundíveis. Foi contemporâneo do Mestre Vitalino, mas desenvolveu e aprimorou estilo próprio, traz a nota.

Para a deputada estadual Raquel Lyra, o ceramista "contribuiu para o engrandecimento do Alto do Moura, de Caruaru e de Pernambuco, com suas peças extrapolando fronteiras. Manuel Eudócio deixa um grande legado, que precisa cada vez mais ser lembrado, valorizado e preservado".

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