Drogas e violência

Viciada em crack por 12 anos, hoje voluntária ajuda outras mulheres

Jaqueline Almeida
Jaqueline Almeida
Publicado em 08/03/2016 às 8:00
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Recuperada do vício, voluntária ajuda outras mulheres que passam pelo mesmo problema
Foto: arquivo pessoal/Joice Rocha
Me envolvi com drogas aos 14 anos. Tudo parecia muito bom. Eu tinha um namorado que me apoiava, mas tudo mudou quando fiquei viciada, diz Joice Rocha*, de 29 anos, que preferiu não ter o rosto revelado. Ela teme que o ex­companheiro a reconheça e volte a atormentar sua vida. Há quatro anos livre do vício, Joice ressurgiu e passou a ajudar outras mulheres com os mesmos problemas na Casa Rosa de Saron, onde é voluntária.

O vício das drogas veio acompanhado de agressões, violência sexual e prostituição. Eu conheci o crack aos 15 anos, fiquei logo viciada. Quando a gente está nessa vida não tem ninguém para ajudar. Eu até tinha um rapaz que gostava de mim, mas ele não aceitava o crack e o fato de eu me prostituir para conseguir comprar mais. Passei a me relacionar com outro homem. No começo tudo era flor, até que ele começou a me bater. Me batia tanto que nem sei dizer como sobrevivi.

As agressões continuaram mesmo após o nascimento dos filhos. Eu tenho quatro filhos, mas só crio dois. Os outros tive que dar para conhecidos, porque uma viciada não pode cuidar de criança. O Conselho Tutelar ia tomar eles de mim. Só percebi o quanto estava no fundo do poço quando tive que dar meus meninos. Foi aí que eu pensei que só tinha duas chances: ou eu morria, ou eu saía daquela vida e trazia meus filhos de volta.

Infelizmente, a decisão de mudar de vida veio depois de uma grande surra. No dia que eu decidi entrar para o Rosa de Saron, meu companheiro me deu um pisa, fiquei cheia de hematomas pelo corpo, tinha marca de tudo. Ele colocou fogo em todas as roupas que eu tinha. Fiquei só com as peças do corpo, mas fui. Foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu não podia morrer. Eu não queria morrer, eu queria uma nova história e foi isso que aconteceu.

Hoje, Joice conta que reencontrou o rapaz que lhe ofereceu ajuda no passado. Ele sempre quis me ajudar, quando me livrei do vício fiquei com ele. Hoje nós temos uma casa, tive uma menina e sou muito feliz. Eu tive a chance de viver de novo, porque nas drogas você não tem vida, não tem mesmo. A gente acha que na rua vai conseguir alguma coisa, mas não consegue não. É só tristeza. Hoje, eu posso ver o quanto a minha vida se transformou. Eu acompanho os meninos que dei. Vejo foto, falo por telefone. Sou mãe dos meus meninos e isso é motivo para comemorar.

No Dia da Mulher, Joice confessa que vai passar boa parte do tempo na Casa Rosa de Saron. A gente precisa de apoio para abandonar as coisas ruins. Eu recebi esse apoio e quero devolver a todas que precisarem de mim. Às mulheres que estão como eu estava, só desejo que consigam encontrar um novo caminho. Todo mundo pode. Deus ajuda e a gente consegue. 

Dados da SDS revelam que mais de 10 mil mulheres foram agredidas no ano passado em Pernambuco
Foto: reprodução
VIOLÊNCIA De acordo com a Secretaria de Defesa Social, mais de 10 mil mulheres foram agredidas no ano passado em Pernambuco. Uma média de 38 agressões por dia. Mais de mil foram abusadas sexualmente e outras 255 foram assassinadas. Os crimes foram cometidos, na maioria dos casos, por companheiros, cônjuges, ex­namorados ou parentes. O número de denúncias nas Delegacias da Mulher cresceu. As mulheres ganharam o reforço do Disque­Mulher (180) para denunciar casos de violência. Não é possível precisar quantas mulheres estão envolvidas com o tráfico de drogas.

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