Saúde

Covid-19: 80% dos entubados morreram no Brasil em 2020

Média mundial é de cerca de 50%. Médicos brasileiros alertam que a situação pode piorar com a falta de medicamentos para entubação.

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Publicado em 20/03/2021 às 16:01
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Reuters/Amanda Perobelli
FOTO: Reuters/Amanda Perobelli
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Em casos graves de Covid-19 a entubação pode ser a única esperança de sobrevivência. Mas, no Brasil, o percentual alto de mortes entre os infectados que precisam de ventilação mecânica assusta: a média foi de cerca de 80% de fevereiro a dezembro de 2020, segundo dados de uma pesquisa obtida pela BBC News Brasil.

A mortalidade se manteve igual no primeiro e segundo semestre, o que mostra que o Brasil não soube aplicar de maneira eficaz as lições aprendidas sobre tratamento de pacientes com Covid-19. Entre as principais causas estão a falta de um protocolo nacional que unifique as técnicas utilizadas e o uso de pessoal sem treinamento e experiência adequados.

Mortes no Brasil e no mundo

Os dados obtidos pela BBC Brasil com os pesquisadores mostram grandes diferenças na taxa de mortes por região. No Norte, a mortalidade de pacientes entubados sobe para 86,7% e, no Nordeste, para 83,7%. No Centro-Oeste, o percentual também é acima da média (83,6%). Já no Sul e Sudeste, a taxa fica em 76,8%.

O percentual brasileiro é maior que a média mundial, de cerca de 50%, conforme estudo que analisou dados de 69 países, publicado no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine. A média de mortalidade de pacientes com Covid-19 entubados na Ásia é de 47%, na Europa, é de 36% e, na América do Norte, é de 46%.

A situação pode piorar

Agora, no pior momento da pandemia no Brasil, médicos de UTIs ouvidos pela BBC News Brasil também alertam para o provável aumento da taxa de mortalidade entre pacientes entubados em todas as regiões do país. Isso porque a superlotação dos hospitais está levando à demora na entubação, agravando o quadro dos pacientes.

Além disso, profissionais de saúde sem experiência em ventilação mecânica estão sendo alocados para UTIs improvisadas. Médicos e associações farmacêuticas alertam que a situação pode piorar, pois o estoque de medicamentos necessários para entubação está perto de acabar.

"O problema é você ter um paciente muito grave, com comprometimento de vários órgãos, e você tratar ele numa situação de sobrecarga, de improviso, com equipes mal treinadas e isso contribui com números ainda mais preocupantes", disse à BBC News Brasil o médico intensivista Ederlon Rezende, que coordena a UTI do Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo.

Falta de protocolo nacional

Até agora, não foi divulgado pelo Ministério da Saúde um protocolo de atuação para entubação de infectados. A pneumologista Carmen Valente Barbas, que atende no Hospital das Clínicas e no Albert Einstein, em São Paulo, destaca que seguir alguns critérios, como o momento adequado para a entubação e o volume de ar utilizado, pode definir a chance de sobrevivência do paciente.

Sem uma orientação nacional cada estado e hospital segue um critério. E aí surgem discrepâncias nas taxas de mortalidade entre hospitais de uma mesma cidade e entre regiões do país. "A ventilação de paciente com Covid não é fácil, é um pulmão fragilizado. Você precisa ser muito delicado com a máquina, porque ela pode causar barotrauma, que é um trauma associado à pressão do ar injetado nos pulmões", explicou Carmen Barbas à BBC News Brasil.

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