BRAVURA

HERÓIS: Bombeiros trabalharam sob chuva e escuridão para dar dignidade à despedida das vítimas da tragédia de Pernambuco

As buscas foram ininterruptas, e o último corpo foi encontrado pelos bombeiros apenas na manhã desta sexta-feira (3), uma semana após ser soterrado

Fernanda Cysneiros Gabriel Dias
Fernanda Cysneiros
Gabriel Dias
Publicado em 03/06/2022 às 12:17
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Welington Lima/TV Jornal
Bombeiros comemoram fim das buscas, após último corpo ser encontrado na cidade de Camaragibe, no Grande Recife; Total de mortos vai a 128 - FOTO: Welington Lima/TV Jornal
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Nem o cansaço extremo de um trabalho braçal realizado por horas a fio e nem o temor de novos desmoronamentos foram capazes de parar centenas de bombeiros militares que buscaram por dias e noites as vítimas de uma das maiores tragédias de Pernambuco.

Com o próprio suor e muita coragem, eles foram até o fim na missão de ofertar aos familiares enlutados a oportunidade de um adeus com dignidade.

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Welington Lima/TV Jornal
Bombeiros comemoram fim das buscas, após último corpo ser encontrado na cidade de Camaragibe, no Grande Recife; Total de mortos vai a 128 - Welington Lima/TV Jornal

O último corpo foi localizado somente na manhã desta sexta-feira (3), na cidade de Camaragibe.

A vítima era a empregada doméstica Mércia José do Nascimento, de 43 anos, que foi soterrada no último sábado (28) na comunidade onde morava.

O cinegrafista da TV Jornal Welington Lima registrou o momento em que os bombeiros comemoraram o fim das buscas e oraram pelos mortos.

Na primeira fotografia desta reportagem, as mãos que se apoiam foram as mesmas que seguraram enxadas, baldes e outras ferramentas para retirar toneladas de lama e destroços que escondiam os corpos.

Nesse e em outros pontos - no Recife, em Olinda e Jaboatão dos Guararapes -, as áreas de buscas eram de difícil acesso.

O solo era escorregadio e, em vários momentos, o trabalho foi feito sob chuva e escuridão

NEM TODO HERÓI USA CAPA

GUGA MATOS/JC IMAGEM
Busca por corpos na Vila dos Milagres no Ibura - Segue noite a dentro a busca dos corpos soterados após deslizamento de Barreiras - Bombeiros - Busca Noturna - Bombeiros - IML - Chuva - Vila dos Milagres - Deslizamento - Barreira - Busca - Corpos - GUGA MATOS/JC IMAGEM

Mesmo depois de várias horas após os soterramentos e com chances de encontrar sobreviventes se esvaindo como um punhado de areia em mãos entreabertas, os socorristas não desistiram - sendo parados apenas quando o mau tempo se impunhava. 

>>> Vem mais água por aí: Apac diz que Grande Recife terá junho de chuvas maiores que média histórica

GUGA MATOS/JC IMAGEM
Vila dos Milagres no Ibura, segue busca por corpos de vítimas de deslizamento de barreira. Bombeiros - Carro IML - Voluntários - Bombeiros da Bahia - Paraiba - Defesa Civil - Ibura - Vila dos Milagres - Casas - Lona - GUGA MATOS/JC IMAGEM

Em algumas comunidades, os moradores reclamaram da demora pelo início do socorro.

A indignação é pertinente, mas deve ser encaminhada às autoridades responsáveis pela gestão pública. 

No que puderam fazer individualmente, os profissionais do Corpo de Bombeiros que estavam em campo demonstraram uma bravura incessante. A eles, todos os parabéns!

GUGA MATOS/JC IMAGEM
Vila dos Milagres no Ibura, segue busca por corpos de vítimas de deslizamento de barreira. Bombeiros - Carro IML - Voluntários - Bombeiros da Bahia - Paraiba - Defesa Civil - Ibura - Vila dos Milagres - Casas - Lona - GUGA MATOS/JC IMAGEM

TRAGÉDIA ANUNCIADA

Os dados oficiais contabilizam 128 mortos.

Para o trabalho nessa tragédia, Pernambuco contou com o apoio de bombeiros militares de outros estados, como Minas Gerais, Bahia e Paraíba.

GUGA MATOS/JC IMAGEM
Vila dos Milagres no Ibura, segue busca por corpos de vítimas de deslizamento de barreira. Bombeiros - Carro IML - Voluntários - Bombeiros da Bahia - Paraiba - Defesa Civil - Ibura - Vila dos Milagres - Casas - Lona - GUGA MATOS/JC IMAGEM

Todo esse esforço, no entanto, não deveria ser necessário, se fossem colocadas em prática obras de infraestrutura para suportar grandes volumes de água e se funcionassem sistemas de comunicação e evacuação da população moradora de áreas de risco

“Na periferia, onde há condições precárias de habitação, a água utilizada nas casas vai para o morro, porque não há coleta de esgoto. As pessoas constroem fossas sem o mínimo de orientação técnica, fazendo com que as águas se juntem às das chuvas e favoreçam os deslizamentos", cita como exemplo de problema, o geólogo e professor de Engenharia Ambiental Fábio Pedrosa, em entrevista ao JC. 

“São cidades muito baixas, então a drenagem precisa ser uma prioridade urbana. Mesmo no verão, há ruas do Recife que ficam alagadas com a maré alta”, acrescenta o especialista, apontando para a falta de um processo adequado de escoamento da água

No Jardim Monte Verde (comunidade com áreas no Recife e em Jaboatão), local com o maior número de mortos, já haviam sido registrados deslizamentos de terra semelhantes em outros períodos de chuva em 2000, 2002, 2007 e 2021.

“A gente não controla o tempo, com as mudanças climáticas, as chuvas vão ser mais imprevisíveis e intensas. O que a gente pode controlar é o investimento público, mas os governos não vêm destinando o recurso adequado para eliminação do risco, e não ter obras estruturantes para essas áreas é condenar as pessoas à morte”, afirmou a diretora Executiva Nacional da Habitat para a Humanidade Brasil, Socorro Leite. 

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CHUVAS NO GRANDE RECIFE JÁ DEIXARAM 128 MORTOS

O Grande Recife sofre com fortes chuvas desde a última semana de maio.

Pelo menos 128 pessoas morreram em decorrência das fortes chuvas em Pernambuco, entre os dias 25 e 28 de maio, de acordo com os dados oficiais do governo de Pernambuco.

Na maioria dos casos, as vítimas morreram soterradas em deslizamentos de barreiras em comunidades pobres onde viviam.

Os óbitos se concentram em morros da periferia do Recife e Jaboatão dos Guararapes. Há mortes confirmadas também nas cidades de Olinda e Camaragibe.

Também de acordo com o governo de Pernambuco, pelo menos 7 mil pessoas precisaram ser levadas para abrigos temporários. O número de famílias que perderam tudo é incerto.


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