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'Não devia nem ter entrado em pauta', diz Lula ao criticar novamente o PL do aborto

Presidente Lula comentou o PL 1904, o chamado 'PL do aborto', e criticou o autor do texto, Sóstenes Cavalcanti, durante entrevista nesta terça

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Rodrigo Fernandes

Publicado em 18/06/2024 às 9:07
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O presidente Lula (PT) voltou a criticar o Projeto de Lei que pune quem interromper uma gestação com mais de 22 semanas, o "PL do aborto", que tramita na Câmara dos Deputados. Em entrevista à Rádio CBN, o petista disse que o texto não deveria ter sido colocado em pauta.

O assunto veio à tona quando a jornalista Cássia Godoy questionou Lula se o governo federal teria subestimado a capacidade do Congresso, em especial a Câmara, de aprovar pautas de costumes consideradas conservadoras, como a pauta do aborto, que teve urgência aprovada na última semana.

"Não subestimei, porque estão fazendo o papel que sempre souberam fazer. Nós não tínhamos a experiência nesse país de uma extrema direita ativista como temos hoje. Pouco, pouco, pouco pragmática na política e muito pragmática nas mentiras. Estamos vivendo um outro mundo, uma outra realidade", respondeu Lula.

"Eu sei quantos partidos elegeram, cada deputado, o perfil de cada partido, sei do nosso tamanho. Nós construímos uma maioria para garantir governança e estamos lidando com isso", acrescentou Lula, emendando comentário sobre as chamadas pautas de costume.

PL do aborto

O presidente disse que não gosta de discutir o assunto pois "não tem nada a ver com a realidade que estamos vivendo".

"Quem tá abortando, na verdade, são meninas de 12, 13 e 14 anos. É crime hediondo um cidadão estuprar uma menina de 10, 12 anos e depois querer que ela tenha um filho, um filho de um monstro. As crianças estão sendo violentadas dentro de casa", disse Lula.

"Como é que a gente pode achar que esse debate é um debate cru. Isso é um debate maduro que envolve a sociedade. Temos que respeitar as mulheres, elas têm o direito de ter um comportamento e não querer. Por que uma menina é obrigada a ter um filho de um cara que estuprou ela? Que monstro vai sair do ventre dessa menina. Essa discussão não é banal como se faz hoje", disparou o presidente, criticando o autor do projeto, o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL).

"O cidadão diz que fez o projeto para testar o Lula. Eu não preciso de teste. Quem precisa de teste é ele. Eu quero saber se uma filha dele fosse estuprada, como ele ia se comportar. Quero muita maturidade nessa discussão porque não é um tema simples", acrescentou.

PL 1904

Lula repetiu o discurso de que, enquanto pessoa física, é contrário ao aborto, mas enquanto chefe de Estado busca tratar o tema como questão de saúde pública. Ele já havia dado a mesma declaração nas redes sociais, na semana passada, quando o debate sobe o tema ficou acalorado.

"Você não pode continuar permitindo que a madame vá fazer um aborto em Paris, e que a coitada morra em casa tentando furar o útero com uma agulha de tricô. Esse é o drama que estamos vivendo", apontou Lula.

"Uma menina de 10, 11, 12 anos, ela primeiro esconde [a gravidez], não quer que o pai e a mãe saibam, esconde de todo mundo. Quando vai cuidar, já está adiantado. [...] Nós estamos no século 21 e estamos retrocedendo nessa discussão e voltando atrás. O que é triste é o seguinte: é que um deputado apresenta um projeto de lei em que o estuprador pode pegar uma pena menor do que a estuprada. O que é isso? Eu sinceramente acho que essa coisa não deveria ter entrado em pauta. Se entrou, não sei por quê, mas não deveria, porque o tema do Brasil não é esse", concluiu o presidente.

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