Economia

Falta de embalagens prejudica exportação de mangas no Vale do São Francisco

A dificuldade tem causado prejuízos aos pequenos e médios exportadores da região

Thiago Santos
Thiago Santos
Publicado em 21/01/2021 às 8:37
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A escassez de caixas de papelão está trazendo prejuízos aos pequenos e médios exportadores de manga da região do Vale do São Francisco. Sem o item, que é essencial para o transporte das frutas, toneladas deixaram de ser repassadas ao mercado externo, e os produtores estão tendo que buscar alternativas para driblar não somente os danos financeiros mas também o desperdício, que pode ocasionar o surgimento da ‘mosca-das-frutas’, grande vilã da fruticultura.

Em outros períodos, os exportadores já presenciaram a falta dessas embalagens no mercado. Entretanto, a pandemia da covid-19, segundo o produtor Eusébio Neves, foi um fator que potencializou o problema, já que desde setembro de 2020, as caixas estão praticamente sumidas do mercado, trazendo grandes prejuízos aos pequenos e médios exportadores, responsáveis por quase 50% da comercialização de mangas no Vale.

“O grande exportador, por ter um capital de giro bem maior, consegue fazer seus estoques próprios, já prevendo essa dificuldade em relação às embalagens. Já nós, pequenos e médios exportadores, por não termos esse capital de giro para compor nosso orçamento, ficamos dependentes do mercado paralelo, que é esse em algumas empresas do Vale do São Francisco compram das grandes fábricas, montam e nos entregam. Mas está faltando. É um efeito dominó”, conta Neves, que diz ter deixado de exportar 300 toneladas de manga, o que corresponde a cerca de 15% de sua produção. O prejuízo financeiro é avaliado em 600 mil reais.

As caixas utilizadas pelos exportadores da região, que são adquiridas de acordo com a safra, vêm de cidades como Goiânia-GO, Fortaleza-CE e Feira de Santana-BA, que envia cerca de 70% desse material. Com a escassez, os exportadores estão tendo que buscar alternativas para amenizar os prejuízos, porém, ainda assim, estão enfrentando dificuldades, já que essas outras opções nem sempre são bem vindas, principalmente pelos compradores estrangeiros.

“Estamos investindo nas embalagens plásticas ou de isopor, porém alguns compradores não aceitam esse tipo de embalagem por uma questão ecológica. São caixas de difícil reciclagem, ao contrário do papelão. Caixas de isopor são bem aceitas no mercado interno, mas no externo, não”, diz o exportador.

Outra saída para os produtores da região seria a importação dos itens de países como a Espanha, que se mostra um grande fornecedor de embalagens para exportação de mangas. Eusébio Neves explica que questões como o valor do euro e os altos impostos dificultam a compra desses materiais pelos pequenos e médios exportadores. Apesar disso, essa possibilidade de compra está cada vez mais perto de se tornar realidade, tendo em vista a necessidade de amenizar os prejuízos.

Procurada, a Associação Brasileira de Embalagens em Papel (Empapel) disse que a venda de papelão ondulado para embalagem registrou forte crescimento desde junho de 2020, e que a alta demanda ocorreu por conta da retomada da indústria para atender o maior consumo de bens de primeira necessidade, além do crescimento do e-commerce e delivery, desde o início da pandemia da covid-19, que fizeram inflar o mercado de embalagens de papelão ondulado.

A associação justificou que a mudança rápida e o crescimento acelerado levou o setor a estender seu prazo de entrega. A retomada do crescimento iniciou em meados de junho com retorno rápido da indústria de bens semiduráveis e duráveis e todos os setores passam a demandar mais embalagens de papelão ondulado.

A Empapel disse que o setor trabalha para recuperar a coleta no mesmo nível pré-pandemia e atender a demanda, e que a redução de ofertas de aparas acabou gerando aumento de preço, desde a retomada, em função do alto consumo.

Em relação ao mercado de embalagens de papelão ondulado, disse que a previsão de regularização nas entregas é de médio prazo. “Os prazos de entrega que costumavam ser de 7 a 30 dias, por conta do alto volume de vendas, estenderam para mais de 30 dias. A expectativa de normalização do setor, segundo a Empapel - Associação Brasileira de Embalagens em Papel - é no segundo trimestre de 2021, a depender da evolução da economia”, disse a Empapel.

Ameaça à produção e impacto social

Com a falta de embalagens, os exportadores estão tendo que ficar com a manga por um maior tempo, o que consequentemente atrasa a safra de 2021. A manga tem uma vida útil de 30 a 35 dias, compreendendo o período entre a colheita e o comércio. Ela precisa ser exportada em até 36 horas depois de colhida.

Mas esse não seria o maior problema. O temor agora é a aparição da ‘moscas-das-frutas’, nome popular dado a Tephritidae, tida como uma das maiores ameaças à fruticultura.

“Temos sofrido bastante, já que muitas das frutas que poderiam ser comercializadas no mercado para a Europa e Canadá estão ficando no campo, causando problemas fitossanitários. A manga que cai no chão passa a ser hospedeira da mosca-das-frutas, que é nosso principal inimigo. Para as nossas frutas atingirem o mercado lá fora, um fator crucial é a não presença delas”, explica Eusébio Neves.

A ‘mosca-das-frutas’ apresenta um ciclo de vida em que seu período larval se desenvolve especialmente no interior dos frutos, alimentando-se, em geral, de sua polpa, podendo causar prejuízos diretamente na produção, na comercialização ou durante o fechamento de mercados para a exportação.

A falta de embalagens, que afeta diretamente a produção, e a pandemia da covid-19, também traz impactos sociais, já que novos empregos, diretos e indiretos, deixaram de ser ofertados.

“Poderíamos estar gerando empregos, mas estamos numa crise sem precedentes e operando com uma capacidade abaixo do operacional. Estamos funcionando apenas com cerca de 50% da capacidade, operacionalizando até três dias na semana. 30 empregos, em média, deixaram de ser ofertados”, conta o exportador do Vale do São Francisco.

Eusébio Nunes acredita que a instalação de uma micro indústria na região evitaria que os pequenos e médios exportadores enfrentassem crises tão graves como essa. Ele acredita que a região possui estrutura e potencial para investir nesse tipo de mercado, mas acredita que os procedimentos burocráticos e, principalmente, o alto custo dos impostos, afasta possíveis investidores.

Os Estados Unidos e a Europa são os maiores mercados consumidores da manga produzida no Vale do São Francisco.

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